Aquém das expectativas

Crescemos sem condições para escutar o silêncio. Talvez porque sabemos que nele habitam as nossas vozes latentes e adormecidas. Talvez porque, porventura, receamos despertá-las e orquestrar autênticas variações sinfónicas, capazes de materializar pensamentos em catadupa e uma essência em dismorfia num barulho absolutamente ensurdecedor. Como tal, ao longo da vida, vamo-nos distraindo. Passamos os dias à procura de uma extensão que conecte o tempo e o alimente e o perdure. Com os olhos postos na utopia desse futuro, descuramos estes raros minutos de existência: esta passagem cronometrada, este destino incerto e em contagem decrescente. Todavia, é nessa azáfama constante que, por vezes, surgem pequenos vislumbres de imortalidade: um oásis que nos faz sentir um pouco mais inteiros, um pouco mais parte deste pedaço de sítio que nunca conheceremos verdadeiramente.



